A obesidade se tornou um dos maiores desafios de saúde pública no Brasil. Dados recentes da pesquisa Vigitel 2025, divulgada pelo Ministério da Saúde, mostram um crescimento alarmante: o número de adultos com obesidade aumentou 118% entre 2006 e 2024.
Esse cenário preocupa não apenas pelo excesso de peso em si, mas pelas consequências associadas. A obesidade está diretamente ligada a um maior risco de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemias e problemas cardiovasculares, impactando na qualidade de vida e na longevidade da população.
No entanto, é importante entender que a obesidade vai muito além da alimentação em excesso. Trata-se de uma condição complexa, que envolve fatores metabólicos, hormonais e também emocionais, como a compulsão alimentar, que atinge cerca de 4,7% dos brasileiros, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Diante desse cenário, cresce o interesse por abordagens terapêuticas complementares. Entre elas, destaca-se o estudo do Sistema Endocanabinoide e o papel de compostos da Cannabis medicinal no controle do apetite, do metabolismo e do comportamento alimentar.
O papel do Sistema Endocanabinoide no apetite e metabolismo
O Sistema Endocanabinoide (SEC) é um sistema biológico presente em todo o organismo, responsável por regular diversas funções essenciais, como fome, saciedade, metabolismo energético, humor e resposta ao estresse.
Ele atua principalmente por meio dos receptores CB1 e CB2. O receptor CB1 está presente em regiões do cérebro ligadas ao prazer alimentar e à tomada de decisão, enquanto o CB2 está mais relacionado à resposta inflamatória e ao sistema imunológico.
Quando esse sistema está desregulado — algo comum em quadros de obesidade — pode ocorrer aumento do apetite, maior busca por alimentos altamente calóricos e dificuldade em manter o equilíbrio metabólico.
É nesse contexto que os fitocanabinoides, compostos naturais da Cannabis, passam a ser estudados como moduladores desse sistema.
CBD e o controle da compulsão alimentar
O Canabidiol (CBD) é um dos fitocanabinoides mais conhecidos e estudados. Diferentemente do THC, ele não possui efeito psicotrópico, o que amplia sua segurança para uso terapêutico.
No contexto da obesidade, o CBD tem chamado atenção principalmente pelo seu potencial em atuar sobre fatores emocionais associados ao ganho de peso.
CBD, ansiedade e comportamento alimentar
Muitos casos de obesidade estão ligados à alimentação emocional. A pessoa come não por fome, mas por ansiedade, estresse ou impulsividade.
Estudos indicam que o CBD pode modular vias relacionadas ao estresse e à ansiedade, ajudando a reduzir episódios de compulsão alimentar. Essa ação ocorre por meio da interação com receptores envolvidos na regulação do humor e do comportamento.
Além disso, o CBD pode contribuir para a melhora do sono, outro fator diretamente relacionado ao controle do peso. Dormir mal está associado ao aumento da fome e à desregulação hormonal.
Inflamação e metabolismo
Outro ponto importante é o papel do CBD na modulação da inflamação. A obesidade está frequentemente associada a um estado inflamatório crônico de baixo grau, que contribui para a resistência à insulina e o acúmulo de gordura.
Ao atuar como anti-inflamatório, o CBD pode ajudar a melhorar esse ambiente metabólico, favorecendo uma resposta mais eficiente do organismo.
THCV e o potencial na redução do apetite
O Tetrahidrocanabivarina (THCV) tem ganhado destaque nas pesquisas recentes por apresentar um perfil bastante diferente de outros canabinoides.
Enquanto o THC está associado ao aumento do apetite, o THCV tem demonstrado efeito oposto.
THCV e controle do apetite
Estudos indicam que o THCV pode atuar como antagonista do receptor CB1 em determinadas doses. Isso significa que ele pode reduzir a ativação das vias relacionadas ao aumento da fome.
Na prática, esse efeito pode contribuir para:
- redução da ingestão alimentar
- melhor controle da saciedade
- diminuição da busca por alimentos altamente calóricos
Impacto na glicose e na insulina
Além do controle do apetite, o THCV também tem sido estudado por seu impacto no metabolismo da glicose.
Pesquisas apontam que ele pode melhorar a sensibilidade à insulina e ajudar no controle da glicemia, fatores essenciais no manejo da obesidade e do diabetes tipo 2.
Esse conjunto de efeitos faz com que o THCV seja considerado um dos fitocanabinoides mais promissores para o tratamento de distúrbios metabólicos.
CBG e sua influência no metabolismo energético
O Canabigerol (CBG) é outro fitocanabinoide que vem ganhando atenção da comunidade científica, especialmente em estudos mais recentes.
Embora ainda esteja em fase inicial de investigação, seus resultados são bastante interessantes.
CBG e formação de gordura corporal
Estudos indicam que o CBG pode interferir na adipogênese, ou seja, no processo de formação de novas células de gordura.
Ao reduzir a formação de adipócitos, o CBG pode contribuir para limitar o acúmulo de gordura corporal ao longo do tempo.
Gasto energético e metabolismo
Além disso, há indícios de que o CBG possa estimular o gasto energético, favorecendo um metabolismo mais ativo.
Embora esses efeitos ainda precisem de mais estudos clínicos em humanos, eles apontam para um potencial no manejo da obesidade.
Cannabis medicinal como abordagem complementar
É importante reforçar que a obesidade é uma condição multifatorial e complexa. Não existe uma solução única ou isolada.
O tratamento envolve uma combinação de estratégias, como:
- alimentação equilibrada
- prática de atividade física
- acompanhamento médico
- suporte psicológico
Conclusão
A Cannabis medicinal surge como uma abordagem complementar, e não substituta, podendo atuar principalmente na modulação de fatores metabólicos e comportamentais.
Quando utilizada com acompanhamento profissional adequado, pode contribuir para um cuidado mais integrado e individualizado.
O mais importante é que qualquer abordagem seja feita com orientação de um profissional habilitado, garantindo segurança e individualização do tratamento.
Inscreva-se em nossa Trilha de Aprendizagem sobre fitocanabinoides, exclusiva para profissionais habilitados à prescrição de Cannabis.
Ref: DOI: 10.1186/s42238-020-0016-7 | doi.org/10.3390/toxins11050275 | doi.org/10.3390/ijms27041747


